quarta-feira, 30 de abril de 2008

trechos de diário 10

... então o sol vermelhou mergulhando na terra. o ar seco desenhava contornos nas sombras do cerrado. o campo extenso era amarelo. estava uma terra incrivelmente grande, quieta e amarela. havia gado, trilhas e muita poeira. percebia que o tempo havia me trazido de volta à realidade do meu país. sempre soube da dureza de voltar e estava com a alma preparada. depois de ter retornado para minha vila no sul do sul, peguei o avião outra vez e cheguei em são luís do maranhão. em uma praia que não lembro o nome, conheci niemayer, filho de paulo. o moleque tinha 5 anos. eu estava sem calção de banho e ele falou sobre sobre o direito da pessoa de ir e vir e andar pelado na praia se for esse o gosto. acabou que nadei, não pelado, mas de cuecas.
no centro histórico de são luís pude passear por ruas muito antigas. o pai do moleque é fotógrafo. vive há 23 anos no maranhão e teve um filho porque olhou para uma mulher que ele pouco conhecia e combinou ter um filho. depois, os dois descobriram que não se aturavam nem por 15 minutos. paulo está esperando a criança fazer 12 anos para jogá-lo na estrada. a estrada é a vida deste fotógrafo. quando eu o conheci e ele havia passado pelo fórum social mundial em porto alegre e desceu em florianópolis. ali eu estava na casa de ram. isso já faz alguns anos. era uma casa no canto dos araças, em frente de um cascata com pedras lindas e água gelada. não existia luz elétrica e tínhamos que pendurar as frutas em cestas, bem como os pães, para os bichos do mato não comerem. estavam na casa, eu, Ram, que agora está meditando nas montanhas da noruega, uma australiana, junto de um matuto, um argentino muito rico que possuía um castelo no outro lado da lagoa e paulo chegou por lá para passar uns dias e ficou um mês. vivemos felizes naquela casa/comunidade comendo comida natural e tocando violão.
agora eu estava de novo, no meio do mesmo tipo de maluco, só que num casarão antiguíssimo no centro histórico de são luís. conheci um rasta sergipano que também namorava uma australiana. as australianas gostam de matutos e eu conversei com os dois e depois eles saíram para um festival de reggae. fiquei por ali falando com um menino de 17 anos. ele havia vindo de Minas e agora estava vivendo de luz. comia nada ou quase nada. o processo para se viver de luz dura 21 dias. ele ficou 7 dias sem comer nem beber, depois fez não sei o que e disse que o alimento ingerido foi para somar a energia do sol. pouca comida deixa a pessoa calma. saber passar e deixar passar é o aprendizado desta estrada, especialmente quando se está, em um curto espaço de tempo, em muitos lugares. quem está solto no mundo, automaticamente exercita o desapego, porque a gente perde coisas pelo caminho. o casarão é um estúdio de fotos e as fotos dos lençóis maranhenses impressionam pela imensidão e claridade de um deserto repleto de lagos com águas transparente. isso é o Brasil. um sem números de paisagens, especialmente quando se entra no interior. o que eu sei é que a bagagem do viajante deve ser leve. o que eu quero é passar como o vento passa, como rio corre. A gente nunca vê duas vezes o mesmo rio...

2 comentários:

Unknown disse...

Que beleza! Acho muito legal estas tuas notas e teus fragmentos de diário.
Um beijo

Mr. disse...

cara, espetacular este post. Viajar é desapego!
grande abraço
Lucas