...tive muito medo hoje. medo de morrer no avião, em uma tragédia. fechei os olhos e imaginei o oceano imenso e todos boiando. as horas passando devagar, o frio crescente e, pouco a pouco, o pavor inicial daria lugar a uma paz de espírito. O silêncio aumentando e a famosa cena da vida inteira passando diante da cortina dos olhos, finalmente aconteceria. então, tentaria lembrar que essa vida me foi incrivelmente grata e que não se deve lamentar na hora de partir. Senão de nada valeria ter viajado tanto. O que mais aprendo na estrada é desapego. De coisas, amigos, lugares. No começo eu tinha uma dor ao deixar de lado tudo que estava acontecendo. depois veio a sabedoria de ver que o que vem, vai e no instante seguinte outra coisa ainda maior acontece.
No aeroporto de frankfurt encontrei um homem. me disse que havia levado um barco do caribe para a espanha e que ficou 50 dias no mar. falou do céu estrelado, que se sentia como fosse um pequeno cisco dentro de um prato de sopa. um nada. ele teve medo, eu vi. ainda me contou uma história triste sobre um amigo de vela que um dia saiu do barco para tomar um banho no meio do mar e se soltou da corda. ele bem que tentou ajudar. jogou a bóia e foi fazer o procedimento de dar a volta com o barco, desenhando um quadrado com 4 curvas em 90 graus. na segunda tentiva de resgate, o amigo sumiu na imensidão e nem a bóia foi encontrada. lembrou da dor da perda, que a família do amigo o acusou de assassino. o cara sumiu há 20 anos e até hoje, para esse homem, parece ontem. o homem confiou a mim uma história desgraçada, que estava viva nas lembranças que o acompanham sempre. ele nem me conhecia. talvez eu nunca mais o veja, mas falar ajuda. assim como escrever. quantas vezes não fiz o mesmo. dizer a qualquer um o que ninguém conta, confiar um segredo na primeira meia hora de conversa. acho que minha cara inspira confiança. sei que esse é meu poder.ouvir e ver. trago isso como uma benção. às vezes passo pela rua, pesco uma frase e fico horas desenvolvendo o tema na minha cabeça. no aeroporto ouvi um cara dizendo que o único problema das loiras é que envelhecem rápido. fiquei pensando que eu havia visto um monte de loiras velhas na praia da dinamarca. elas eram inteiras, saudáveis com boa pele. acontece que o sol do brasil é muito forte e os brancos acabam sofrendo mais. se na próxima vida eu for nascer branco vou para outro lugar. deve existir um serviço de informações sobre o outro lado. agora já estou voando para o Brasil. dormi pouco, bebi vinho e sonhei com um lugar cheio de brasileiros. no meu sonho estavam policiais me cobrando algo. eu dizia que 99% dos policiais eram bandidos nas horas vagas. estava com o emersom e a gente tomava chimarrão. o juliano e o diego também estavam no sonho. então fui de carona com os policiais fazendo o mate numa cuia de couro. sonhos. não os entendo.
sei que ainda muito vai acontecer nesse ano e não tenho a mínima idéia o que será. o avião aponta para São Paulo, vejo o sertão da Bahia. estou cansado, sujo, diferente. mais uma vez sei que o cara que fechou a porta da casa na saída, não é o mesmo que vai abrir. mudei, para melhor. tenho sono, sede, fome, estou feliz. meu anjo sorri para mim, está cansado. trabalha muito quando eu viajo, fica nervoso reclamando do meu silêncio por que é um anjo coruja esse. gosta de mim e do que viu e do perdeu das minhas histórias...



