quinta-feira, 1 de maio de 2008

trechos de diário 11

faz tempo que descobri que a realidade supera a ficção de qualquer escritor. veja você que em poucos meses eu cruzei tantos lugares que seria difícil imaginar e ver o que há em cada canto destes e saber de cada personagem que se perde ao cruzar a esquina. fiquei um tempo tentando prever o destino do casal que conheci na casa de paulo. o rasta nem português falava direito e a australiana falava inglês. estavam seguindo para costa rica, de ônibus para chegar não se sabe bem onde, nem como, se empurrando na floresta amazônica em barcos, dormindo em redes, cruzando as guerrilhas na colômbia, as febres, a malária e a cólera vivendo esse brasil por dentro com populações isoladas dos convívios das gentes, sem notícias dos americanos mortos no iraque somente cuidando a época do plantio e da colheita, do nascer e do pôr-do-sol, arrumando uma erva para queimar e vendo o mundo passar mais ligeiro que o próprio tempo.
no fim da noite,me despedi dos amigos e desci as ladeiras antigas de são luís, cheirava a mijo. acabei vendo um povo feio, pobre dançando reggae agarradinho.
agora estou de novo em um avião voando para casa, sentindo falta de um bom cálice de vinho.
antes de viajar joguei fora muitas revistas, livros. vou fazer isso com os cds. não devemos ter muito. o exercício de jogar as coisas fora impede a pessoa de envelhecer. não me importo se não sei nada sobre a genealogia da família. a gente não é o que os outros foram. nossa história se faz de página vivida e página virada. aos meus pais agradeço pela educação, mas sobretudo a oportunidade de poder existir para olhar. sem julgamentos, sem maldade demais, sem bondade falsa, saber passar como o vento falado anteriormente. pensando bem eu sou o vento que bate na minha cara. Olho para um lado é junho, não tenho tempo de virar a cabeça e já é agosto e vi mais nesse tempo que alguém viu em uma vida. abro os olhos, espio pela janela do avião e já não vejo o mar, vejo um sol rodando e iluminando tudo que existe de mais longe. é dia, os anjos repousam ao redor, os personagens dessas histórias estão presos aqui e ao mesmo tempo estão seguindo os próprios caminhos, tomando as infinitas decisões...

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