...o verão passou e eu sobrevivi e assim, inspirado nas andorinhas, vou em busca do eterno calor. viver dois verões por ano, em dois hemisférios diferentes me faz sentir tão livre quanto as árvores e os pássaros que percebem que os dias aumentam e as noites ficam mais curtas. não há escuridão à minha frente, nem treva alguma. só uma esperança que faz sentir a vida arranhar a pele. o grande negócio desse século para mim é viver, nem que para isso eu tenha que arrancar meu coração com a mão só para vê-lo pulsar. vamos lá, o sol ainda não se foi e se eu dormir, sei que vou sonhar. são os campos da minha infância que passam pelos meus sonhos. os cavalos. o zaino, o pangaré, a tordilha velha - aquela vaca que foi morta na frente da casa da fazenda deixando o sangue fresco no pasto trazendo todo o gado de todos os campos para assistir ao espetáculo mórbido. e eu, à cavalo, tentando espalhar a bicharada. vejo a lua cheia iluminando o pampa prateado e um peão voltando para a mangueira anunciado pelo trote de outros cavalos. ouço o ruído dos porcos, o bater do taco das botas no chão de madeira. sinto cheiro de carne de ovelha queimando e percebo o movimento do galpão com a empregada preparando o café. levanto e saio para a porta. alguém me oferece um mate e o ruído do amanhecer se desfaz cotidianamente. o dia amanhece, acordo e estou na espanha, em um trem, descendo rumo ao sul. mais uma vez ao sul. desta vez para andaluzia. imagino os guitarreiros, ouço o flamenco se aproximando em guitarras virtuosas e a cor vermelha de panos grudados a corpos suados...
quarta-feira, 7 de maio de 2008
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