sexta-feira, 16 de maio de 2008

trechos de diário 15 - a floresta amazônica

pensando bem o que trago em mim agora é um tanto de incerteza e inconsciência. quando subi o país rumo a porto velho eu não sabia que algum inseto iria me picar as pernas e o saco, no momento de glória quando eu entrava na floresta. essas picadas me deixaram com muita coceira por mais de dez dias. mas não foi só essa a lembrança que ficou desses dias na selva. cheguei de tarde na aldeia. as crianças correram para ver a lente da câmera e eu me sentia o próprio descobridor dando espelhos para os selvagens. mas eles não eram tão selvagens assim. os karitianias são bem civilizados, mas também são bem mais índios que todos os índios que conheci. com orgulho, me mostraram as caveiras de macaco, paca e tatú que exibiam na frente das casas. era a prova que eram bons caçadores. mas a comida era pouco naquele lugar. além da fronteira da reserva, a floresta deu lugar a um campo limpo, onde o gado pasta gordo e os fazendeiros descansam suas botas sujas de lama. mas eu não estava na fazenda e sim, na floresta. para essa viagem eu não levei quase nada de comer, pois sempre encontro o que comer. dessa vez não havia nada.eu não tinha como comer a comida daqueles índios que tão pouco tinham. a solução foi jantar arroz com feijão na casa do representante da funai. a luz era de vela e logo depois da ceia simples e honesta, fui dormir na barraca montada ao lado da escola da aldeia. eu sabia que em volta de mim estava a floresta amazônica. dormir ali representava dormir nos braços da terra pela primeira vez na vida. foi isso que pensei antes de fechar os olhos. não lembrei de onça, curupira ou algo que o valha. quando estava pegando no sono, começei a ouvir uns cantos e gritos vindos da oca maior. não havia luz e eu era uma curiosidade para saber o que passava. por outro lado, não queria ser um branco intrometido no meio do culto. saí da barraca e caminhei no escuro por entre a aldeia suja e deserta, cuidando onde pisar para espiar os índios em transe. ao sentir que estava a poucos metros de onde vinham os gritos, paralisei. voltei correndo no escuro para a barraca. não vi nada, mas aqueles gritos no meio da selva ainda hoje me acompanham. nunca havia ouvido nada tão primitivo na vida. nunca havia dormido em um lugar como aquele! quando amanheceu, pequenos índios me espiavam. eu espiava as crianças que me espiavam. levantei, tomei um banho no riacho e saí para encontrar macaco. por sorte a caça não apareceu e eu resolvi ir embora antes do almoço. na verdade dei sorte, pois eu não poderia fazer desfeita caso um macaquinho fosse servido em homenagem a minha tão solitária visita...

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